CHURRASCO SANGRENTO


Sábado de sol tímido, piscina suja, carne de segunda.
Depois que a cerveja gela, quase nada pode comprometer o churrasco de fim de semana na casa de Luiz.

São 11h da manhã, e os convidados de sempre começam a chegar. Renan é o primeiro. É o churrasqueiro que só se encarregou dessa função porque toma remédio com horários rigorosos, e não pode fazer isso de barriga vazia.
A segunda é Sabrina. Secretária de Luiz, sempre chega mais cedo para dominar o aparelho de som.  Ao som de pagodes ela anima a festa. Ninguém reclama porque assim que a moça começa a dançar,  ela se torna música da melhor qualidade para os olhos tarados dos quarentões.

-Será que o Dudu vem? – alguém pergunta sobre o amigo gago que não gagueja quando bebe.

-Não sei... mas a Verônica já ligou dizendo que tá chegando. – responde o encarregado de convidar as mulheres do financeiro da empresa.

O ponteiro maior não queria, mas se encontrou com o ponteiro menor no alto do relógio. Como sempre acontece, a maioria dos convidados chegam todos de uma vez. Suspeita-se até que ficam num mesmo lugar esperando informações. Quando algum informante sinaliza que está tudo ok, ou seja: nenhuma cebola pra cortar, nenhum saco de carvão para abrir, eles pegam suas cervejas e invadem o local.

Mas dessa vez algo deu errado. Alguém trouxe um convidado que incomodou o dono da casa desde o primeiro momento em que viu o rapaz entrando no quintal brincando com os cachorros. Como não haviam motivos concretos pra não gostar do cidadão, preferiu desprezar a intuição e definir como preconceito a antipatia inicial. Resolveu receber o rapaz  e descobrir quem tinha o convidado.

-Você veio com quem? – tentou ser sutil, mas tinha começado a beber às 9h da manhã.
-Opa! – dando um abraço no dono da casa. –Sou amigo da Sabrina...

“Vou demitir essa safada. Além de não tocar meus boleros, ainda traz “peguetes” pra dentro da minha casa” – pensou Luiz, com a mão no ombro do rapaz.
           
-Fique à vontade...
-Cleivisson!
-Ah, sim. Pode ficar à vontade, Claifitoun.

Não tirou os olhos do intruso um minuto sequer. Luiz o acompanhava por cima dos óculos ensebados da gordura vinda da churrasqueira. Fitava-o pegando na cintura de Sabrina e dizendo coisas no ouvido dela. “Filho de uma marica”, pensava alto Luiz.

Respirou fundo. Estava na hora de esquecer tudo aquilo. Em nome do final de semana, era o momento de perdoar o rapaz por todos os crimes que ele não sabia que estava cometendo. Mais uma vez respirou fundo, cantarolou uma mistura de “Além do horizonte” de Roberto Carlos com “Bola de Sabão” de Claudinha Leite, e foi até o freezer pegar uma Skol. Mas teve uma surpresa ingrata: não encontrou nenhuma de suas cerveja e ainda viu uma caixa de Kaiser escondida no fundo do refrigerador. Naquele momento, sentiu um ódio mortal e uma certeza voraz de que isso era obra do “Creifiton, Creivisson... Sei lá!”.
Bateu com força o freezer e foi atrás do intruso. Procurou por todo o quintal, banheiros, mas alguém disse que viu o rapaz e a secretária entrando juntos na casa.
Luiz entrou furioso procurando os dois até abrir a porta do quarto e pegar os dois na sua cama.

-Que merda é essa aqui?!
-Calma, chefe! – disse Sabrina, desesperada.

Luiz pega uma arma que está na gaveta do armário e aponta pro amante da secretária:

-Eu quero ver os dois bebendo Kaiser... Vamos! Agora, porra! Bebe tudo, seu viado!

E respirando com alguma dificuldade, joga toda a Skol que o rapaz bebia em cima da secretária.


André Barreiros, 15 de Agosto, São Paulo.

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