SÓCIO NA MARRA












Folgado é o cara que aprendeu a ser feliz no lugar do outro. Digamos que você comprou um carro: o anti-herói não consegue disfarçar a alegria. Pensará você que tal euforia resulta da profunda amizade que ele sente pela sua pessoa, mas não, ele está feliz por ele mesmo. Ele está mais que feliz, ele está re-a-li-za-do. Ele agora tem um carro. O único problema é ter que dividir o automóvel com você, mas ele tem consciência que nem tudo pode ser como se pensa.

Outra situação: você acaba de ganhar um aumento. O folgado não se cabe de alegria e diz palavras de incentivo que nem seus pais diriam. Você chega até pensar que encontrou um amigo pra toda vida, um irmão, mas descobre toda a trama quando vai pro bar com o nobre colega e ele pede para você “segurar” a conta, já que ele, pessoa nascida para ser ajudada, está desempregado.

O folgado sempre está bem. Ele vive na zona de conforto do outro. Se o amigo está com problemas no trabalho, mas em casa está tudo bem, o folgado quer usufruir do momento familiar. Se a sorte no jogo está maior que a sorte no amor, ele quer jogar com o seu par de “As”.

O pedaço de carne que você deixou no canto do prato para comer por último às vezes tem outro dono, e não preciso dizer quem é. A cerveja que você deixou gelando para abrir quando chegasse das 10 horas de trabalho? As chinelas Havaianas, aquela que está a tanto tempo com você que já te dá boa noite? Às vezes tem outro dono. 

O folgado dá 3 beijinhos na sua namorada toda vez que a vê, mesmo tendo visto ela pela quarta vez no dia.
É o sócio que entrou no negócio da sua vida sem capital de giro, contrapartida, e ainda quer ser o presidente da empresa.
É o cara que chega por último no ônibus e quer sentar na janela, ao lado da sua mulher.

O folgado é o responsável por aflorar a mesquinharia nas pessoas. O trauma causado por um folgado é temido ao ponto da humanidade evitar pensar em sinônimos que definam melhor um perfil psicológico dessa natureza. Mas eu me arrisco: Inflação Humana.












André Barreiros, 13 de agosto de 2010, São Paulo. 

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